domingo, 31 de março de 2013

Desabafo

Se há coisa que me mexe com o sistema são as pessoas que se acham mais espertas, mais trabalhadoras ou com mais moral do que as outras. Quando ouço algumas criaturas virem dizer para a televisão "Estou a precisar de um funcionário, tenho anúncio no centro de emprego e ninguém concorre...ninguém quer é trabalhar!" tocam-se-me os sinos cá dentro! Então num país com tanto desemprego, com tanta gente aflita para sustentar a família, ninguém quer trabalhar? Eventualmente as pessoas ainda têm é uma réstia de dignidade e, apesar de todas as dificuldades, ainda há condições que não aceitam! Além disso, um dos objectivos primordiais de se trabalhar é ganhar dinheiro, certo? Se se vai gastar mais em transportes do que aquilo que se recebe, qual é a ideia de sair de casa? Só se for hipotecar-se ainda mais...A minha mãe tem uma lojinha e todos os dias vão lá imensas clientes perguntar se ela sabe de alguém que precise de uma senhora para tomar conta de crianças, ou para fazer limpezas...tem vários papeizinhos de publicidade de pessoas que se oferecem para fazer reparações, de carpinteiros, serralheiros, mecânicos...Não digo que, efectivamente, não existem criaturas que adoram não fazer nada desta vida, mas a grande maioria dos portugueses não é assim. Não estou contra quem se sujeita a trabalho mal pago, ou às vezes nem pago - tenho duas colegas enfermeiras que vão trabalhar só pelas refeições, numa casa de saúde, durante TRÊS meses, porque depois PODE SER que exista a possibilidade de ficarem - mas revoltam-me os exploradores que se aproveitam da má fase que estamos a passar.
Falo de barriga cheia, como se costuma dizer, não me posso queixar, o meu ordenado ao fim do mês é bom, apesar de as minhas colegas há quatro anos ganharem cinco vezes mais do que se ganha actualmente, percebo que quem me paga não me possa aumentar o ordenado, percebo perfeitamente que mesmo assim já estão a fazer um esforço grande para que a clínica esteja aberta e para que os postos de trabalho se mantenham todos. Dou-me por muito feliz por estar a trabalhar para aquilo que estudei e num sítio decente. O mesmo não acontece com as minhas colegas, desta e de outras áreas da saúde. O mesmo não acontece com os meus pais. A minha mãe trabalha mais de 12h por dia e o dinheiro que consegue juntar não é para tirar um ordenado ao fim do mês, é para pagar os impostos e as taxas e mais não sei quantas coisas por conta. O meu pai está desempregado há 10 anos. Os trabalhos que vai arranjando são temporários, e até arranja com frequência à custa dele, porque do centro de emprego, onde continua inscrito, nunca veio sequer uma proposta. Ainda assim tem de ir lá às reuniões sempre que o convocam, explicar porque é que não arranja um emprego fixo. Perguntar isto, de forma arrogante como se o outro fosse um fardo (ainda que tenha descontado 40 anos para o Estado...), a uma pessoa de 60 anos, que não tem formação superior e que ficou desempregada aos 50 anos, numa mesa cheia de jovens com montes de diplomas é, além de ridículo, de uma extrema falta de sensibilidade. De onde é que esta gente saiu, de um buraquinho nos confins do mundo? Não vêem televisão? Não lêem os jornais??
Quando não se pode não se pode e se está maus para todos então todos temos de fazer um esforço, não é como queríamos mas é o que há. O que me revolta nem é o dinheiro em si, é a atitude dos chicos-espertos que gostam de espezinhar os outros.
 
 

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