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A carta

Esta carta publicada por Isabel Moreira no Maria Capaz, sobre a vivência de uma amiga, é um soco no estômago. Como é que é possível existirem monstros assim? É de tirar o sono...

“Tenho 30 anos, sou advogada, entre outras profissões, bem-sucedida, bonita, dizem, casa própria, carro, não tenho de fazer grandes contas para uma vida razoável, uma mulher nascida e criada num ambiente familiar privilegiado, com estudos, com vida, com amigos, com recursos, e um convite para uma exposição de escultura.
Vou e encontro pessoas distantes do mundo ideológico que abracei, ouço, como tantas vezes, o conselho: – tens de sair um pouco dos teus ambientes, são perigosos. Tenho um primo muito bonito, gosta de pintar, é artista, olha que coisa de esquerda, a este vais dar uma oportunidade.
Rio-me do disparate e conheço o tal do primo, bonito, alto, corpulento, conversador. Tinha o encanto do humor.
Fomos jantar duas vezes. Gostei dos lugares. Gostei da conversa. Gostei de recantos.
Ao terceiro jantar, tive uma indisposição e o primo, encantador, ofereceu-se para me levar a casa, a pé, apanhando ar pelo caminho. Chegados a casa, o primo pousa-me na cama e dá-me um copo de água com açúcar.
Encantador.
– Como te sentes, melhor?
– Sim, obrigada, mas ainda fraca e enjoada.
O primo dá-me um beijo nos lábios e aventura-se para o resto do meu corpo de privilegiada. Estou muito fraca, afasto-o e viro-me de lado para dormir.
O primo não aceita e diz-me que vou gostar e de repente é um relâmpago na memória enjoada de um corpo de mulher, de repente é a memória do quarto ficar vazio, inexistente, cheio dele, nem eu lá estava, só aquela posse, ele em cima de mim a suar como uma torneira aberta e a revelação de uns olhos assassinos, só aquela intromissão, ele a prevenir a prova dele, por isso o preservativo, ele a bater-me com método, como uma toalha molhada que não deixa marcas, ele a sufocar-me enquanto me roubava o nome de cada vez que entrava no meu corpo em golpes de dor que chutavam deus, ele a explicar da sua especialidade em corpo humano, um pulso sobre o meu esterno de privilegiada e a voz sussurrante Vês, cabra, mato-te num gesto. E eu?
Eu, a privilegiada, quieta, nem um gesto. Na minha cabeça uma palavra que desenhava por dentro da testa: sobreviver. Senti que ia morrer pela garganta ou pelo externo e por isso obedeci. Fui virada de costas e atingi o limite da dor, não gritei, isto é, gritei pelos olhos enquanto ouvia entre bofetadas: – Por que choras, puta? Tens medo de morrer, puta? Sabes que te mato num segundo, puta? Olha para mim a tirar a camisa limpinha, velha fodilhona que nem sabe fazer um homem vir-se…
Parou. Passado quatro horas, talvez. O primo foi à casa de banho e voltou cheio de balões que fizera com preservativos, para enfeitar o quarto. Ria alto e perguntava: – ainda choras, puta velha?
Estendeu-se ao meu lado e adormeci.
Exatamente. Adormeci. Aquele  corpo violado, cuspido, suado, insultado, resistente, colapsou. Acordei já sozinha. Tinha a casa de banho com fezes espalhadas na retrete.
Não houve queixa. Foi uma escolha consciente.
Levantei-me a custo, lavei os lençóis, telefonei a uma médica amiga, e não havia uma marca.
No corpo.
Tomei remédios para as dores e fui trabalhar.
O primo sabia violar sem deixar esperma, sem deixar nada, deixando tudo.
Tudo foi o silêncio de anos. O não dizer eu fui violada. 
Tudo foi não dar pelo facto de que aquela noite gerou uma tendência para comportamentos de submissão.
Tudo foi passar anos sem descobrir que precisava de falar com alguém, que toda a gente que passa por uma violação tem de falar com alguém, recusar a vergonha e aceitar isto: eu preciso de ajuda.
Porque depois dessa ajuda, eu, a privilegiada, descobri que fui inteligente e corajosa, que não me ter debatido fisicamente foi a minha estratégia de sobrevivência, que não permiti coisa alguma, que a minha ansiedade era normal, e descobri que aquele primo, um homem próximo e não um desconhecido, não me define.
Ganhei eu, entendem?

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