Avançar para o conteúdo principal

Porque hoje está chuva - O Escafandro e a Borboleta

"...No distintivo de identificação pregado na bata branca de Sandrine está escrito: ortofonista (terapeuta da fala), mas deveria ler-se: anjo da guarda. Foi ela quem me instaurou o código de comunicação sem o qual eu ficaria separado do mundo. Infelizmente, embora a maior parte dos meus amigos tenha adoptado o sistema, depois de uma aprendizagem, aqui, no hospital, só posso praticá-lo com Sandrine e uma psicóloga. Na maior parte das vezes, só disponho de um magro arsenal de mímica, piscadelas de olho e acenos de cabeça para pedir que fechem a porta, me dêem um pouco de água, baixem o som da televisão ou me subam a almofada. Ao longo das semanas, esta solidão forçada permitiu-me adquirir um certo estoicismo e compreender que a humanidade hospitalar se divide em dois tipos. Há a maioria que nunca atravessa a soleira da porta sem tentar entender os meus SOS e outros, menos conscienciosos, que se eclipsam, fingindo não ver os meus sinais de aflição.
(...) Para além dos aspectos práticos, esta incomunicabilidade pesa um pouco. Imagine-se como me sinto reconfortado duas vezes por dia quando Sandrine bate à porta, faz uma cara de esquilo apanhado em falta e expulsa de imediato todos os maus espíritos. O escafandro invisível que me envolve permanentemente parece menos opressivo."
O Escafandro e a Borboleta.
Jean-Dominique Bauby

Porque é importante sermos capazes de nos colocarmos do outro lado, de ajudarmos a aliviar o peso do escafandro.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Help

Ajudem-me lá, uma viagem de 4 dias, três na Disney e um em Paris, em regime de meia pensão, 700 euros. É muito? É bom? Ou consegue-se melhor? Sou novata nestas andanças...
Hoje numa sessão de Terapia da Fala vi um menino de nove anos em sofrimento. Tem muitas dificuldades e é posto de parte pelos colegas na escola, batem-lhe, tratam-no mal...Contou-me que sabe que é diferente, que na turma dele há outra menina, que também é diferente, e que os outros gozam com ela, mas ele não, porque também tem problemas e sabe o que é não ter ninguém que nos apoie. Disse-me assim. Acrescentou que de manhã acordou tão feliz porque ia estar com o primo ao fim da tarde...e que depois na escola lhe bateram, não pôde fazer a aula de educação física e ficou lá num canto...que o dia foi uma tragédia. "Preciso de esvaziar o cérebro, não consigo parar de pensar nisto!". Tentei acalmá-lo, animá-lo, traçar um plano com ele, dizer-lhe como agir se uma situação semelhante voltar a acontecer. No fim, dei-lhe um abraço e ofereci-lhe uma caneta colorida e ele disse-me "Obrigada...pela caneta...por tudo. Acho que a minha vida é injusta. Obrigada por me ouvires." ...

Escreve e escreve muito bem. Assino por baixo.

Vida de solteiro  “ E a namorada?” Alguém vai me perguntar. Aí vou sorrir e responder: “Estou solteiro !”. E logo depois vem aquela cara de: “nossa, coitadinho”, quando ao meu ver era a hora certa da pessoa me abraçar e pularmos gritando: “Parabéns Campeão!” Sabe, realmente não entendo essas pessoas que colocam o fato de encontrar uma pessoa como sendo um dos objetivos primordiais da vida . Como se a ordem natural fosse: nascer, crescer, conhecer alguém e morrer. A meu ver, não é assim. As pessoas se dizem solteiras como quem diz que está com uma doença grave, alguém que precise de ajuda. Não é nada disso. Existe sim vida na “solteridão”! E das boas. E isso não quer dizer farra, putaria, poligamia ou promiscuidade. Aliás, quer dizer sim, mas só quando você tiver afim. No mais quer dizer liberdade, paz de espírito , intensidade. E olha que escrevo isso com algum conhecimento de causa, já que tenho vários anos de namoro no currículo. De verdade, do fundo do coração , eu estou mui...